Muito antes de os trilhos da Sorocabana chegarem a Boituva, em 1882, a região já era caminho. Entre Sorocaba e Porto Feliz, duas das vilas mais importantes da então província de São Paulo, passavam tropeiros, mascates e carros de boi. O Curumbá — grafado Corumbá nos documentos oficiais — aparece justamente nesse período, como um dos lugares de descanso desses viajantes. Esta reportagem conta o que os registros oficiais dizem sobre essa fase e indica onde a cultura tropeira pode ser vista hoje no município.
Uma terra entre duas vilas
Segundo a página de história da Prefeitura de Boituva, antes do século XIX a área era habitada por indígenas guaianases, perto de Porto Feliz, e carijós, perto de Sorocaba, que chamavam o lugar de M-Boituva, expressão traduzida como “muitas cobras”. O território ficava entre as duas vilas e pertencia, em partes, aos dois municípios.
A prefeitura lembra que Porto Feliz era o ponto de partida das monções, expedições fluviais rumo ao interior, e que Sorocaba já tinha população estimada em 25 mil habitantes em meados do século XIX. Boituva, no meio do caminho, já tinha o nome oficializado desde a sesmaria concedida a José de Campos Bicudo, em 1726.
Os pousos do Corumbá
É nesse contexto que surge o Corumbá. O texto oficial registra que mapas da época já apontavam os bairros de Corumbá, Pinhal, Sítio Grande e Pau d’Alho, onde moravam famílias e funcionavam pousadas de descanso para viajantes, tropeiros e mascates. Havia também caminhos para carros de boi, usados para recolher a produção agrícola da área.
Pelas estradas da época existiam ainda pontos de parada conhecidos como “bolichos”, segundo a mesma fonte. Em meados do século XIX, tropeiros vindos do Sul começaram a se fixar na região. Entre eles, a prefeitura cita Jerônimo Soares Rosa, que adquiriu uma sesmaria no bairro Pinhal e ali iniciou, em 1902, uma das indústrias mais antigas da cidade.
O problema, como registra o histórico municipal, era o custo de levar a produção até os centros consumidores. Isso só mudou com a ferrovia: a estação, inaugurada em 1882, deslocou o crescimento para o entorno dos trilhos, onde nasceu o Centro. Alguns bairros daquela época seguem identificados como rurais: em comunicado de 2020, a prefeitura ainda se referia ao Pinhal como “área rural”.
Linha do tempo
| Período | Fato registrado |
|---|---|
| 1726 | Sesmaria de José de Campos Bicudo; nome Boituva oficializado |
| 1766 | Nova sesmaria, concedida a João Fernandes Maciel |
| Século XIX | Mapas mostram Corumbá, Pinhal, Sítio Grande e Pau d’Alho, com pousos para tropeiros |
| Meados do século XIX | Tropeiros do Sul se fixam na região |
| 1882 | Inauguração da estação da Sorocabana |
| 1902 | Instalação de uma das indústrias mais antigas da cidade, no Pinhal |
Fonte da tabela: página “Nossa História”, da Prefeitura de Boituva.
Onde ver a cultura tropeira hoje: o Museu do Tropeiro
A herança desse período tem endereço em Boituva: o Museu do Tropeiro, na zona rural do município. Segundo a página oficial de atrativos da prefeitura, o museu foi criado por Isael Pereira da Cruz, conhecido como Sr. Cruz, para preservar a memória do tropeirismo. O acervo reúne mais de 700 peças doadas por famílias da região, entre ferramentas originais da época, as chamadas “tralhas” e objetos do dia a dia dos tropeiros. Um dos destaques é o fogão de trempe, usado no preparo do feijão-tropeiro, prato símbolo dessa cultura.
Há divergências nas fontes oficiais sobre a data de fundação (a página de atrativos cita 1997; o Plano Diretor de Turismo, 2007) e sobre o endereço. A página da prefeitura informa a Estrada Municipal Laércio Marson, 140 (Sítio do Zé Bueno), enquanto o plano cita a Alameda dos Jerivás, 140, no bairro Jerivá.
Como visitar: a prefeitura informa que as visitas precisam ser agendadas com antecedência, pelos contatos publicados na página do museu em “O que fazer em Boituva”. Não há horário fixo divulgado; combine o dia e confirme o endereço no momento do agendamento.
Por que isso importa para o bairro
Para quem mora no Curumbá ou conhece a região, o registro histórico mostra que o bairro é mais antigo que a própria cidade ferroviária: ele já existia quando Boituva era apenas um ponto de passagem entre Sorocaba e Porto Feliz. É uma parte da história do município que a fama do paraquedismo costuma deixar em segundo plano, e que o Museu do Tropeiro ajuda a manter viva.
Leia também: Curumbá, Boituva: guia do bairro; O que os bairros dos mapas antigos de Boituva guardam hoje.
Fontes: Prefeitura de Boituva (páginas “Nossa História” e “Museu do Tropeiro” em “O que fazer em Boituva”; notícia “IPTU 2020”); Plano Diretor de Turismo do Município de Boituva 2022-2024; Estações Ferroviárias do Brasil.
