A cerca de 12 km do centro de Salto de Pirapora, na zona rural, vive uma das comunidades quilombolas mais estudadas do país. O Cafundó ficou conhecido no fim dos anos 1970 porque parte de seus moradores conservava uma fala com vocabulário de origem banto, chamada cupópia. Hoje a comunidade vive principalmente da produção de hortifrútis orgânicos e recebe escolas e visitantes com agendamento, numa experiência que mistura história, agricultura e memória afro-brasileira.
Origem: terras herdadas no fim da escravidão
Segundo a Prefeitura de Salto de Pirapora, a comunidade existe oficialmente desde pelo menos 1888, ano da abolição, quando o casal Joaquim Congo e Ricarda possivelmente herdou as terras do antigo senhor, após conquistar a liberdade. Os descendentes continuam vivendo no território. Relatos orais registrados no verbete da comunidade na Wikipédia apontam as filhas do casal como origem dos dois grupos familiares que permanecem na área.
Ao longo do século 20, a comunidade enfrentou disputas pela terra, já que parte da área foi ocupada por vizinhos. A prefeitura informa que, por volta de 1985, o Condephaat, órgão estadual de patrimônio, tombou parte do território.
A regularização das terras
O processo de regularização foi aberto em 1999 pela Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp), e o procedimento federal começou em 2004, no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), segundo reportagem da revista Consultor Jurídico de 2016. Naquele ano, a Justiça Federal em Sorocaba promoveu audiências de conciliação para indenizar proprietários de áreas incluídas no território. A prefeitura registra que, em 2012, a comunidade regularizou boa parte de suas terras. A situação fundiária atualizada deve ser consultada no Incra e no Itesp.
A cupópia, “a conversa” do Cafundó
O Cafundó ganhou projeção nacional em 1978, depois da visita de um jornalista ao bairro rural, segundo a revista Pesquisa Fapesp. Pesquisadores da Unicamp, entre eles o linguista Carlos Vogt e o antropólogo Peter Fry, passaram a estudar a comunidade. O trabalho resultou no livro “Cafundó: a África no Brasil”, publicado em 1996.
Os estudos mostraram que a cupópia usa a gramática do português falado no interior paulista, mas com grande parte do vocabulário de origem banto, grupo de línguas da África central e austral. Para a prefeitura, as expressões são chamadas cupópia, palavra que significa “conversa”. Mais do que uma sobrevivência do passado, os pesquisadores descrevem a fala como uma prática viva, usada em contextos próprios pela comunidade.
Como é a visita
A comunidade atende visitantes somente com agendamento prévio. Segundo a prefeitura, a estrutura inclui:
| Espaço | O que oferece |
|---|---|
| Centro de visitantes | Dois alojamentos para até 32 pessoas, com banheiros, cozinha e salão de refeições |
| Loja | Artesanato produzido pela comunidade |
| Pousada e restaurante | Hospedagem e refeições para grupos |
| Área de plantio | Hortifrútis orgânicos, com participação no plantio e na colheita |
| Capela de Santa Cruz | Exposição de fotos que contam a história da comunidade |
| Centro da Memória | Acervo sobre a trajetória do Cafundó |
O roteiro pode incluir oficinas de artesanato e de cultivo orgânico. Escolas de São Paulo e da região de Sorocaba visitam o local há anos, e a comunidade vem se preparando para receber também cicloturistas, atraídos pelas rotas rurais de Salto de Pirapora.
Economia e sustento
A prefeitura descreve a comunidade como autossustentável. A maior parte da renda vem da venda de hortifrútis, e o turismo complementa o orçamento e ajuda a preservar a história local. Comprar produtos e artesanato na própria comunidade é uma forma direta de apoiar esse trabalho.
Boas práticas para quem vai
- Agende antes e chegue no horário combinado; não se trata de um atrativo aberto ao público em geral.
- O Cafundó é território de moradia: peça autorização antes de fotografar pessoas e casas.
- Siga a orientação dos moradores nas áreas de plantio.
- O acesso combina trecho asfaltado e estrada rural; em dias de chuva, informe-se sobre as condições.
Quer emendar outros passeios? Veja pontos turísticos de Salto de Pirapora.
Serviço
- Onde: Bairro do Cafundó, zona rural de Salto de Pirapora, a cerca de 12 km do centro.
- Visitação: apenas com agendamento.
- Informações: Prefeitura de Salto de Pirapora, Secretaria de Esporte, Cultura e Turismo. Telefone geral (15) 3491-9595, das 7h30 às 11h30 e das 13h às 17h.
Fontes: Prefeitura de Salto de Pirapora (página “Comunidade Quilombo do Cafundó”); Revista Pesquisa Fapesp (edição 113, julho de 2005, “A África no Brasil”); Consultor Jurídico (5/6/2016, sobre a conciliação na regularização de áreas quilombolas); Tribunal Regional Federal da 3ª Região (notícia sobre as audiências de conciliação em Sorocaba); Wikipédia (verbetes Cafundó e língua do Cafundó).
