Muito antes de ser um bairro de comércio movimentado, o Além Ponte era a margem do rio por onde passavam as tropas de mulas que fizeram a fama de Sorocaba. Várias ruas de hoje mantêm o traçado desse período. Este texto reconstitui como surgiram os primeiros caminhos da região com base na dissertação de mestrado de Adilson Aparecido Spim, defendida na Universidade de Sorocaba (Uniso) em 2014, que reúne registros de historiadores locais como Aluísio de Almeida.
Um nome que nasceu da geografia
Segundo a pesquisa, à medida que a antiga Vila de Nossa Senhora da Ponte de Sorocaba crescia, os moradores passaram a se orientar por marcos físicos. A cidade ficou dividida em quatro grandes regiões. O Além Ponte era a área a que se chegava atravessando a ponte, e o Além Linha ficava depois da estação ferroviária. O Cerrado, mais afastado, tinha esse nome por causa da vegetação típica. A quarta região era o centro. A origem popular do nome do bairro está detalhada no nosso guia do Além Ponte.
A ponte, as tropas e o Registro de Animais
A dissertação aponta 1733 como marco da expansão do Além Ponte, com a passagem da primeira tropa de muares. O governo colonial aproveitou o estreitamento do rio proporcionado pela ponte para criar ali o Registro de Animais, posto em que os tropeiros eram obrigados a passar e a pagar impostos. O mais importante desses registros foi instalado em Sorocaba em 1750, junto à ponte sobre o rio, no ponto em que hoje a ponte liga a Rua XV de Novembro à Avenida São Paulo.
O trabalho registra ainda ocupações anteriores. Em 1695 já havia uma casinha de palha ou sapé junto à ponte. Por volta de 1733, o futuro capitão-mor José Barros Lima construiu suas casas à direita da ponte, dando início ao que hoje é a Rua Coronel Nogueira Padilha.
Da Estrada dos Morros à Nogueira Padilha
A principal via do bairro era uma estrada de terra conhecida como Estrada dos Morros. Ela seguia em linha reta e, segundo o texto citado na dissertação, começou larga por causa das tropas. Depois virou Rua dos Morros e, por fim, Rua Coronel Nogueira Padilha, nome que mantém até hoje e que atravessa também a vizinha Vila Hortência.
Outras ruas antigas também mudaram de nome:
| Nome antigo | Nome atual |
|---|---|
| Rua da Boa Morte (a primeira) e, depois, Rua Aurora | Rua Constantino Senger |
| Rua Boa Morte (aberta em 1856) | Rua Rui Barbosa |
| Estrada dos Morros e, depois, Rua dos Morros | Rua Coronel Nogueira Padilha |
A segunda Rua Boa Morte recebeu esse nome porque a primeira tinha passado a se chamar Rua Aurora. É a atual Rua Rui Barbosa, que tem um trecho entre a Nogueira Padilha e a Avenida São Paulo.
Chácaras dos dois lados do caminho
Depois de 1800, a paisagem ganhou a Chácara Amarela. De cada lado da Estrada dos Morros, um vale separava as chácaras Quinzinho de Barros e Amarela. A pesquisa conta que o capitão Joaquim Eugênio Monteiro de Barros, o Quinzinho de Barros, era dono de terras que cobriam praticamente todo o Além Ponte. Parte de sua fazenda é hoje o Parque Zoológico Municipal que leva o seu apelido.
Quinzinho de Barros também teve papel na chegada dos imigrantes espanhóis no início do século 20. Para desembarcar no Brasil sem ser enviada a uma fazenda de café, uma família precisava de uma carta de chamada assinada por um fazendeiro. Segundo o historiador Sérgio Coelho de Oliveira, citado na dissertação, ele cedia as terras para os espanhóis plantarem como meeiros. A Chácara Amarela, por sua vez, abrigaria em 1919 o terceiro grupo escolar da cidade, voltado aos filhos dos operários do bairro. A história dessa escola está em outro texto nosso.
Para ver o traçado hoje
Quem caminha pelo bairro pode perceber parte dessa história no mapa. A largura e o traçado reto da Nogueira Padilha lembram a antiga estrada das tropas. A ponte entre a Rua XV de Novembro e a Avenida São Paulo marca o lugar do antigo Registro de Animais. Os nomes Constantino Senger e Rui Barbosa substituíram as primeiras denominações religiosas.
Para aprofundar, a dissertação está disponível no site da Uniso. Algumas das imagens antigas reproduzidas no trabalho, como a da casa da Chácara Amarela, pertencem ao acervo da Biblioteca Infantil Municipal de Sorocaba.
Fontes: Universidade de Sorocaba (Uniso), dissertação “A criação do Grupo Escolar Senador Vergueiro (1919) e a escolarização dos filhos dos operários em Sorocaba”, de Adilson Aparecido Spim (2014), com citações de Aluísio de Almeida e Sérgio Coelho de Oliveira.
