A Vila Palmira é um bairro residencial colado ao Centro de Boituva, e a ferrovia é uma das suas vizinhas mais antigas. Pelo mapa colaborativo OpenStreetMap, a linha férrea passa a menos de 100 m do ponto que identifica o bairro, e o leito de um ramal desativado há mais de seis décadas fica a cerca de 250 m. A estação de 1882, onde a cidade começou, está a uns 350 m. Esta reportagem trata do que a ferrovia deixou no entorno do bairro, e não da história do prédio da estação.
A linha que continua passando
A linha que corta a região é a antiga Estrada de Ferro Sorocabana, a ferrovia que deu origem a Boituva. O OpenStreetMap a identifica como operada pela Rumo, concessionária de transporte ferroviário de cargas. Ou seja, a linha não é peça de museu: trens continuam circulando ao lado de um bairro residencial.
A presença dos trilhos aparece até no trabalho de zeladoria da Prefeitura. No cronograma de serviços divulgado para a segunda quinzena de setembro de 2026, a Secretaria de Meio Ambiente incluiu a roçada da “faixa relvada paralela à linha do comboio”, no trecho entre a Rua Coronel Eugênio Motta e a Câmara Municipal, no Centro.
O ramal de Porto Feliz: 42 anos de trilhos
Boituva começou como ponta de linha e virou entroncamento. Segundo a Prefeitura e a Wikipédia, em 1889 a estação passou a ser ponto de saída do ramal de Tatuí, depois ampliado até Itararé. Em 1920 ganhou outro ramal, curto, para Porto Feliz.
O ramal de Porto Feliz tem uma ironia histórica. Boituva nasceu como povoado de Porto Feliz e foi distrito daquele município a partir de 1906. Mesmo assim, a ligação ferroviária entre os dois só ficou pronta em 1920, e até então eram ligados apenas por caminhos de terra. Em 1962 o ramal foi desativado, 25 anos depois de Boituva se emancipar, em 1937.
O caminho do ramal não sumiu do mapa. O OpenStreetMap registra, a cerca de 250 m da Vila Palmira, trechos marcados como “Antigo leito da E. F. Sorocabana – Ramal de Porto Feliz”. É um vestígio do tempo em que dois ramais saíam da estação de Boituva.
Sobrenomes da história nas placas
O histórico oficial da Prefeitura conta que, com a estação, chegaram funcionários da ferrovia, comerciantes e famílias que se fixaram na cidade. Algumas aparecem nas ruas do bairro e do entorno:
| Via | O que diz o histórico oficial sobre o sobrenome |
|---|---|
| Rua Palmiro Sartorelli | Sartorelli está entre as famílias chegadas no início do século XX |
| Avenida Alexandrina Bertoldi Vercellino | Vercellino e Bertoldi chegaram no século XIX, vindas da Itália e da Áustria; o texto cita Alexandrina B. Vercellino entre os pioneiros |
| Rua Nicola Vercellino | Nicolau Vercellino aparece entre os moradores que se fixaram em volta da estação |
| Rua Hermínia Primo | Primo: o texto cita Cezidio Primo, vindo de Vitorito, na Itália |
A Rua Palmiro Sartorelli e sua esquina com a Avenida Alexandrina Bertoldi Vercellino aparecem em documentos da Câmara Municipal como endereços da Vila Palmira. As demais vias estão no entorno imediato, segundo o OpenStreetMap. Coincidência de sobrenome não prova parentesco com cada homenageado, mas mostra como a memória das famílias da era ferroviária ficou nas placas.
O destino da estação
A estação, reconstruída em 1933, foi restaurada e hoje abriga a Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa, na Avenida Tancredo Neves, s/nº, ao lado da rodoviária. A Prefeitura informa que o espaço está sendo adequado para receber um museu. O Plano Diretor de 2021 lista entre as estratégias de turismo “valorizar o patrimônio histórico da cidade com criação do museu municipal” e promover o tombamento de prédios históricos. A história do prédio está contada em reportagem própria do Cidade Sorocaba sobre o Centro de Boituva.
Convivendo com os trilhos
Morar perto de uma linha ativa pede alguns cuidados:
- Atravesse só nos pontos sinalizados e nunca com o sinal de alerta ligado.
- Crianças e animais: a faixa ao longo da linha não é área de lazer.
- Problemas na faixa ferroviária, como mato alto, lixo ou cerca danificada, podem ser comunicados à Prefeitura pela Ouvidoria Municipal. Questões da via férrea em si cabem à concessionária.
- Pesquisa histórica: a Secretaria de Cultura, pelo (15) 3363-6180, é o contato indicado pela Prefeitura para informações sobre a ferrovia.
Fontes: Prefeitura de Boituva (páginas “Nossa História” e “Estação Ferroviária”, cronograma de serviços de setembro de 2026 e página da Secretaria de Cultura e Economia Criativa); Wikipédia (verbete Boituva); Lei Municipal nº 2.854/2021 (Plano Diretor); Câmara Municipal de Boituva (proposituras sobre a Vila Palmira); OpenStreetMap.
