Médicos de UBSs de Sorocaba relatam atrasos nos pagamentos
Profissionais que atendem nas Unidades Básicas de Saúde de Sorocaba afirmam que os pagamentos previstos para 30 dias têm demorado mais de dois meses. Veja o que dizem a Prefeitura e as empresas.
Cidade Sorocaba
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Médicos que atendem nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) de Sorocaba vêm enfrentando atrasos seguidos para receber pelos serviços prestados à rede municipal. O prazo previsto em contrato é de até 30 dias depois dos atendimentos, mas, segundo relatos de profissionais da rede, o dinheiro tem chegado com mais de 60 dias de espera.
Como funciona a contratação
O vínculo desses médicos não é direto com a Prefeitura. Eles atuam como Pessoa Jurídica (PJ) e são contratados por empresas terceirizadas, que fazem a gestão das escalas de atendimento dentro das unidades. Uma das empresas citadas nessa cadeia é a AR – Escalas Médicas.
Um agravante apontado pelos profissionais é a troca periódica das prestadoras responsáveis pelo repasse. Quando a empresa que paga muda de tempos em tempos, cobrar valores em aberto vira uma corrida atrás de interlocutor — e o histórico da dívida se perde no caminho.
O que dizem os profissionais
Uma médica ouvida pela reportagem do Jornal Cruzeiro, que pediu para não ser identificada, afirmou que o atraso se repete todo mês. A justificativa que costuma chegar até eles aponta para a falta de repasse do município às empresas. Ela pondera, porém, que os médicos não são servidores da Prefeitura: trabalham dentro do SUS, mas com contrato firmado junto a uma empresa privada.
Outro ponto do relato é a ausência de previsão. Segundo ela, os profissionais não recebem qualquer informação sobre quando o pagamento vai cair, e os valores acabam quitados sem correção monetária ou multa pelo tempo de atraso. Manifestações recentes do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) e do Conselho Federal de Medicina (CFM) sobre atrasos no pagamento de médicos não teriam mudado o cenário local.
Mesmo assim, de acordo com o relato, as escalas continuam cobertas e o atendimento à população segue normalmente — situação que, segundo a profissional, tem gerado desgaste e angústia entre os colegas. Ela avalia ainda que a terceirização se tornou hoje a principal porta de entrada de médicos na rede municipal, ao lado dos concursos públicos, o que aumenta a dependência dos profissionais em relação às empresas contratadas.
O que diz a Prefeitura
Em nota, a Secretaria da Saúde (SES) informou que os contratos preveem o pagamento após o envio das comprovações por parte das empresas médicas. A pasta afirmou que o município fiscaliza e segue os procedimentos aplicáveis, sempre assegurando o direito de ampla defesa, e destacou que todos os contratos estão disponíveis no Portal da Transparência.
A reportagem também questionou a Prefeitura sobre quantos médicos terceirizados atuam nas UBSs, quais valores são pagos às prestadoras, quantas empresas passaram pelo serviço nos últimos anos e se houve aplicação de multas ou sanções por causa dos atrasos. Não houve resposta a esses pontos até a publicação.
O que dizem as empresas
Procurada, a AR – Escalas Médicas informou que atua apenas no recrutamento dos médicos e que os pagamentos são feitos atualmente pela Beneficência Hospitalar de Cesário Lange (BHCL). A BHCL foi contatada e não se manifestou até a publicação da reportagem.
Por que isso importa para quem usa as UBSs
As Unidades Básicas de Saúde são a porta de entrada do SUS em Sorocaba: é nelas que começam o acompanhamento de doenças crônicas, o pré-natal, a vacinação e o encaminhamento para especialidades. Quando a remuneração de quem sustenta as escalas fica instável, o risco não é abstrato — é de rotatividade de profissionais, buracos na agenda e fila mais longa no balcão.
Por ora, o atendimento segue mantido. Mas o caso expõe uma engrenagem pouco visível para o morador que marca a consulta: entre o município e o médico que o atende existe uma cadeia de empresas privadas, e é nessa cadeia que o dinheiro está travando.
Com informações do Jornal Cruzeiro.