O nome do bairro Santa Rosália vem de uma fábrica de tecidos instalada em Sorocaba no fim do século 19, quando a cidade se firmava como polo têxtil e ganhava o apelido de “Manchester Paulista”. Jornais da época e pesquisas acadêmicas permitem reconstituir o porte daquela indústria e a vida de quem trabalhava nela. Este texto se baseia principalmente no estudo “Indústria têxtil, movimento operário e a questão das greves na cidade de Sorocaba”, do historiador Jefferson Carriello do Carmo, professor da Universidade de Sorocaba (Uniso). O trabalho foi apresentado em 2007 no Simpósio Nacional de História da Associação Nacional de História (ANPUH).
Uma fábrica anunciada em 1890
A industrialização têxtil de Sorocaba começou com a Fábrica de Tecidos Nossa Senhora da Ponte, inaugurada em 1882. Oito anos depois veio a segunda grande indústria do setor. Em 24 de outubro de 1890, o jornal Diario de Sorocaba noticiou a futura instalação da Companhia Industrial Santa Rosália. Em 1º de novembro do mesmo ano, publicou o capital investido e a lista de acionistas.
A empresa se dedicava a fiar e tecer algodão. Os números reunidos no estudo mostram uma das maiores operações da cidade:
| Item | Quantidade |
|---|---|
| Fusos | 30.168 |
| Teares | 625 |
| Cardas | 60 |
| Operários, de ambos os sexos | 840 |
| Produção mensal de algodãozinho | 100 mil metros |
| Algodão consumido por mês | 80 mil quilos |
Segundo a pesquisa, o algodão era quase todo cultivado no próprio município. A fábrica tinha ainda uma seção especial de máquinas de descaroçamento, o que a colocava entre as mais modernas da época.
A vida dentro e em volta da fábrica
Assim como outras indústrias têxteis do período, a Santa Rosália manteve casas para os operários em seus terrenos, origem da vila que deu forma ao bairro. O guia do Santa Rosália conta como esse núcleo se transformou em área residencial e comercial.
A rotina era dura. O jornal O Operário, de orientação socialista e anarquista, denunciou em 1909 jornadas de 12 a 15 horas diárias nas fábricas Santa Maria, Santa Rosália e Fonseca. Às vezes o “serão” ia até a madrugada. Segundo o jornal, essas jornadas impediam os menores que trabalhavam nas fábricas de frequentar as escolas noturnas.
A greve de 1910
Em 10 de março de 1910, os tecelões da Santa Rosália, então de propriedade de Oetterer e Speers & Companhia, entraram em greve. O motivo, segundo O Operário, era a insatisfação com o salário e com o número exaustivo de horas de trabalho. Os operários formaram uma comissão de três representantes, um brasileiro, um italiano e um espanhol, para negociar. Os patrões se recusaram a atender as reivindicações, e a seção de tecelagem decidiu parar.
A paralisação durou um dia. De acordo com o jornal, cerca de 70 trabalhadores ligados ao movimento foram dispensados. Eles tiveram prazo de 2 a 24 horas para desocupar as casas em que moravam nos terrenos da fábrica. A composição da comissão mostra o peso da imigração italiana e espanhola na mão de obra têxtil de Sorocaba.
Crise de 1914 e greve geral de 1917
Em agosto de 1914, numa reunião de industriais e comerciantes na Câmara Municipal para discutir a crise econômica, o diretor da Santa Rosália, Frank Speers, alertou que o fechamento imediato das fábricas deixaria milhares de operários sem pão. O jornal Cruzeiro do Sul registrou a fala. A saída combinada na reunião foi a emissão de bilhetes, garantidos pelos industriais, para a compra de gêneros de primeira necessidade no comércio.
Em julho de 1917, durante a greve geral que se espalhou pela cidade, os grevistas percorreram várias indústrias, entre elas a fábrica de chapéus Souza Pereira, a Santa Rosália e a Santa Maria. Segundo o estudo, mesmo onde já tinha havido aumento de salário, os operários concordaram em parar em solidariedade aos colegas.
Onde ver essa história hoje
O bairro guarda referências do período. A Praça Pio XII, na Avenida Pereira da Silva, é tombada como patrimônio histórico, segundo a Prefeitura, e mantém um coreto, repintado na revitalização entregue em 2023. Quem quiser aprofundar pode consultar o estudo da ANPUH, disponível no site da associação. Coleções de jornais como O Operário e o Cruzeiro do Sul também são citadas nas pesquisas sobre o movimento operário sorocabano.
Fontes: Associação Nacional de História (ANPUH), “Indústria têxtil, movimento operário e a questão das greves na cidade de Sorocaba”, de Jefferson Carriello do Carmo (Uniso, 2007), com base nos jornais Diario de Sorocaba, O Operário e Cruzeiro do Sul; Agência de Notícias da Prefeitura de Sorocaba.
